XINGANDO COM OS SANTOS


  XINGAMENTOS PARA
     CATÓLICOS COM TESTOSTERONA

*Advertência: Se você é ‘fresco’ e ‘sentimental’ nem leia este artigo.

"Vamos! Aprontemos-nos para combater os ímpios anomeus. Se eles se indignarem com a designação de ímpios, fujam da impiedade e eu retiro o nome; renunciem aos pensamentos incrédulos e eu desistirei do apelativo injurioso. Se, porém, eles pelas obras profanam a fé e não se escondem, cobertos de vergonha, debaixo da terra, por que se irritam contra nós, que condenamos com palavras o que eles manifestam com ações?" (São João Crisóstomo, Da incomprensibilidade de Deus, Homilia 2. Ed. Paulus, p. 33)

Colocar as regras de polidez acima da integridade da fé é sinal de que a própria fé está em crise. Muitos católicos, tendo perdido o senso das proporções, ficam mais chocados com palavrões que com a destruição da fé. A síndrome do bom mocismo encontra-se hoje em toda parte. Os traidores da Igreja são tratados com linguagem açucarada e bem polida. Os inimigos obstinados da fé imutável, recebem o mesmo tratamento que qualquer sincero discípulo de Cristo. O sentimentalismo pueril e pusilanimidade formam hoje, um quadro de fraqueza moral nunca vista na história da Igreja.

Os Apóstolos, os Santos, os Padres da Igreja, e até Nosso Senhor Jesus Cristo foram mestres na arte de xingar apropriadamente os traidores obstinados da fé.  Xingar corretamente, na ocasião apropriada, não é anti-bíblico. Evidentemente que não se trata daquele xingamento vulgar, corriqueiro, mas daquele que em ocasiões apropriadas, "dá nome aos bois" e desvela sua malícia. 

Nosso Senhor, apenas em Mateus 23 xinga 16 vezes os escribas e fariseus. Os nomes são “hipócritas” (7 vezes), “filhos do inferno” (1), “guias cegos” (duas), “tolos e cegos” (3 vezes), “sepulcros caiados” (1), “serpentes” (1) e “raça de víboras”. Ora, se Cristo era isento de pecado, podemos concluir que xingar como tal não é um pecado. Se tudo o que ele fez foi justo e virtuoso, podemos deduzir que xingar corretamente pode ser uma virtude.

Mas vejamos outros exemplos. São João, apóstolo do amor, chama determinadas pessoas de “mentirosas” e “anticristos”. São Paulo, em 1 Timóteo 4.2 se refere aos “mentirosos hipócritas” e em 5.13 ele fala das “fofoqueiras e indiscretas”. O apóstolo ainda usa os seguintes xingamentos: “servidores de Satanás” (2Cor 11,13-15), "inimigos da cruz" (Fp 3.18), “Descabeçados” (Gl 3,1), “doidos” (2Cor 11,19) e “insensatos” (Rm 2,20 ). Aqueles que já foram infectados pelo vírus do politicamente correto e ficam chocados com os xingamentos, deveriam objetar à prática de Jesus, São Paulo e São João, e de muitos outros.

Os xingamentos perpassam toda a Sagrada escritura. Os termos “insensato”. (Gênesis 31,28), “imbecil”, “tolo” ( Provérbios 17,21) estão por toda parte. O profeta Ezequiel falava se referia aos “maquinadores de perversidades”, e aos “difusores de maus conselhos” (Ezequiel 11,2). Os Padres da Igreja usavam xingamentos sempre que achavam necessário. Demonstravam que as regras de polidez podem ser quebradas quando a integridade da fé é colocada em jogo.

Santo Inácio de Antioquia usava “lobos” (Filadelfienses 2), “feras na forma humana” (Esmirniotas, 4), “defensores da morte” (Ermirniotas 5) contra os traidores. São Policarpo de Esmirna, em Filipenses 7 chamava-os de “Primogênito de satanás”. São Jerônimo tinha todo um bestiário para designar os inimigos da fé: “asnos bípedes”, “cães furiosos”, “cachorros de Cila”, “insetos”, “porcos”, “escorpiões”, “ave de mau agouro”, “animal mudo, mas venenoso”, “cobra”, “cão que volta ao seu próprio vômito”, “víbora”. (Cf. SPANNEUT, Michel. Os Padres da Igreja 2, Ed. Loyola, p.189)

São Gregório de Nazianzo, em pleno Concílio de Constantinopla, dirigindo-se a certos bispos traidores, bradou-lhes todo um repertório de xingamentos: “estrategistas de uma tal falange”, “cães, digo, pastores”, “escória do gênero humano”, “porcos”, “despudorados”, “arrogantes”, “alcoolizados”, “vagabundos”, “bufões”, “efeminados”, “falsos”, “insolentes”, “prontos ao perjúrio”, “sanguessugas do povo”, “invejosos”, “espertalhões”, “pérfidos”, “aduladores desavergonhados dos poderosos”, “leões ferozes com os humildes”, ”personagens equívocos”, “oportunistas sem escrúpulos”. (Citado por Padre Paulo Ricardo, Introdução a Teologia das Fontes, aula 1)

São João Crisóstomo dizia que “não vai contra a natureza da paciência atacarmos, quando necessário, quem faz o mal", porque, "se sofrermos com paciência as injúrias que nos atingem, isto é digno de louvor"; mas, dizia o "boca de ouro", "é excesso de impiedade tolerar pacientemente as injúrias feitas contra Deus”. (Citado por São Tomás de Aquino, Suma Teológica, 2a. 2ae., q. 136, a. 4, ad. 3).

São Nicolau, cheio de zelo pelo Senhor, chegou a atacar o herege Ário não somente com palavras, inclusive bateu-lhe no rosto.

(http://www.ortodoxia.org.br/sinaxe/s_nicolau.html)

Durante a Idade Média, muitos santos xingaram os inimigos da fé. São Bernardino chamava-os de “Filhos do diabo” (Paulo de S. Theresa, Flagello do peccado: tomo II, dos damnos que causa esta fera cruel, editora na Officina de Antonio Pedrozo Galram, 1736). São Francisco nos Fioretti ensinava a retrucar as palavras do demônio assim: "Se o demônio lhe disser que tu estás condenado , responde-lhe: "abre a boca para eu cagar aí." Santo Antônio, que também foi franciscano, chamava os infiéis e os hereges, fossem  eles bispos ou padres, de “prepotentes”, “ladrões”, “falsos profetas”, “hipócritas”, “padres avarentos”, “luxuriosos”, “bispos indignos”, “presos de todos os vícios”, “prelados infiéis”, “mercenários”. Antônio chegou mesmo a dirigir-se à um bispo infiel da seguinte maneira: "É a você que falo agora, mitrado", começava o santo, a incriminar a má conduta de um arcebispo. (Cf. SOUZA, José António de Camargo R de. O pensamento social de Santo António, EDIPUCRS). Santa Catarina de Sena costumava a chamar os maus sacerdotes de “demônios encarnados”. (Diálogo, ed. Paulus, p. 256)

Mesmo depois do fim da Idade Média, os santos jamais deixaram de dizer certas verdades fazendo uso de xingamentos. São Thomas More referindo-se a Lutero escreveu: “Lutero não tem nada em sua boca, exceto latrinas, sujeira e bosta. Monge louco, cafajeste, de mente imunda, com seus delírios e desvarios, com sua sujeira e bosta, cagando e sendo cagado”. (Cf. GODHILL, Simon. Amor, Sexo e Tragédia, ed. Jorge Zahar, p.138). 

E por fim, um santo do século XX, São Josemaría Escrivá aconselha "o apostolado dos palavrões" em casos de necessidade: 

"Que conversas! Que baixeza e que... nojo! - E tens de conviver com eles, no escritório, na universidade, no consultório..., no mundo. Se pedes por favor que se calem, ficam caçoando de ti. - Se fazes má cara, insistem. - Se te vais embora, continuam. A solução é esta: primeiro, pedir a Deus por eles e desagravar; depois..., ir de frente, varonilmente, e empregar “o apostolado dos palavrões”. - Quando te vir, hei de dizer-te ao ouvido um bom repertório". (CAMINHO, ponto 850)
http://www.escrivaworks.org.br/book/caminho-ponto-850.htm


Alguns, ainda melindrados, podem aparecer com o texto de são Mateus (5.22), onde se lê: “Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo, e qualquer que chamar a seu irmão de raca será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe chamar de louco será réu do fogo do inferno”.

Mas que fique claro. O texto não proíbe o xingamento correto. Não é o xingamento em si mesmo que é proibido, mas o xingamento desproporcional à gravidade das circunstâncias. Jesus, os Apóstolos, e todos os Santos xingavam adequadamente para alcançar um propósito específico: dizer a verdade. O xingamento, feito de modo correto, não somente não é um pecado, pode ser uma virtude. Trata-se de identificar uma pessoa pelo que ela é, o que não pode ser feito exceto através do apostolado dos palavrões.



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Fé, História, Filosofia e Literatura

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